domingo, 23 de dezembro de 2018

Olhando no escuro

Sento no canto da sala
no escuro consigo me observar com mais clareza.
No escuro consigo reparar minhas ações.
Consigo ver a sombra da minha mão se levantando
Ela se movendo em direção as lagrimas que escorrem em meu rosto
Ela tenta manter o controle dessas lágrimas que escorrem pelas cicatrizes.
As marcas que essas sombras confusas da vida fizeram,
Meus olhos quando veem essas marcas não compreendem.
Não reconhecem meu rosto, por isso gosto de me reencontrar no escuro.
E sentir cada parte do meu corpo, olhar através da escuridão.
Com mais clareza para entender aonde foi que perdi minha essência 
e fiquei só com o corpo.
Sentindo minha pele vejo o quanto áspera está.
Seca, gelada, morta, ferida...
É como se meu corpo tivesse passado por lugares diferentes, porém pesados.
Perigosos o suficiente para me matar aos poucos. 
Foi isso que aconteceu.
Volto para minha face, minha pele caída, mole, molhada, velha, cansada.
Estou muito cansada.
Minhas pernas se encolhem.
Se encolhem a ponto de sentir meus joelhos pressionarem meus seios.
Minha mão passeia pelas laterais de minhas coxas, desce pela minha panturrilha.
Toco meus pés.
Meus pés calejados, doloridos, frios, minhas unhas grandes arranhando meus dedos, sola suja.
Fiz uma maratona no deserto.
Mesmo que não seja verdade, é assim que meu corpo se sente.
Esse é o momento que toco minhas partes intimas.
O lugar onde minhas mãos se sujam por completo.
Sangue! Muito sangue! Dor! Muita Dor! Feridas! Muitas Feridas!
Meus olhos quando veem esse sangue e essas feridas não compreendem.
Não reconhecem esse corpo, pois não é normal pra meu corpo ficar assim.
Por isso gosto de me reencontrar no escuro.
E sentir cada parte do meu corpo, olhar através da escuridão.

Clara Britto

Nenhum comentário: