domingo, 3 de fevereiro de 2013

O corvo


"E o Corvo não foi embora: lá ficou, lá se demora,
pousado no busto branco de Palas, sobre os umbrais,
com a aparência tristonha de algum demônio que sonha;
e a luz no piso desenha seus contornos fantasmais;
e eis que, perdida, minha alma dos contornos fantasmais
se livrará – nunca mais!" E.A.P.

Talvez um dia a vida se transforme em algo bom
quando ela atravessa a escuridão.
Um ser que vive nas sombras não esconde segredos.
por mais que a escuridão esconda seus olhos 
da luz que se enxergue a verdade.

Mais uma mão cai sobre a cabeça abaixada,
culpada por erros insanos.
O olhar do corvo permanece a me cobrir.
Me deixando sem saída nas portas
de refúgio que deixei a vista para minhas mágoas.

Nada vejo além das sombras dos galhos 
sobre os bancos da praça.
e um homem coberto de agasalhos  
me olha através de minha janela.

Com um olhar triste ele me observa.
ou é a mim ou é o corvo que ele olha.
e se identifica.
Será eu esse ser solitário que ele vê?
ou um simples pássaro que escolheu
o caminho da escuridão para se esconder
das culpas de suas vidas passadas?

O que a lua vê quando esse homem
e esse pássaro olham pra mim?
o que eu sou para cada ser?
o que eu devo ser para
convencer a eles que vou me
tornar aquilo que eu sonhava ser?

e o que eu sonhava ser ao olhar do corvo?
além de um simples corpo que se move
em direção a porta que se abre
e ao sair  se fecha com a pressão do vento
e me causa a impressão de que a qualquer momento
um vulto ou um lamento irá passar por mim.

Clara Brito.

Nenhum comentário: